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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Joker

Joker


Joker. O fucking filme.


Sempre estive no team dos que diziam que "ninguém ultrapassará Heath Ledger como Joker. Nunca. Ninguém." Acreditei piamente nisso mesmo quando vi que Jared Leto ia interpretar a personagem em Suicide Squad. Acho-o muito bom ator, mas não... Ninguém ia ultrapassar Heath. Foi quando saiu a notícia de que Joaquin Phoenix ia ser o próximo Joker que as minhas crenças desmoronaram e a vida provou de novo que eu não sou feita para ter ideias fixas. Caraças, é que o Joaquin Phoenix deve ser o único ator que eu imaginava a fazer de Joker como ninguém - e pisco aqui o olho ao Jake Gyllenhaal também, vá. Quando saiu a notícia, um primo enviou-me uma mensagem a perguntar-me "Será que vai ser bom?" e eu respondi-lhe "Vai ser o melhor de todos."


E é. Já estava à espera que fosse um filme do caraças, mas não esperava que me deixasse verdadeiramente desconfortável. E eu acho que Joker é isso mesmo: um filme muito desconfortável. Senti-me indisposta, inquieta - constantemente a trocar de posição na cadeira -, realmente incomodada e profundamente triste com o que estava a ver. 


Acho que Joker é dos filmes que melhor retrata o que é sofrer de uma doença mental e de solidão.


Mas para dar um contexto, - se é que ainda é preciso - Joker é o grande inimigo de Batman - e se ainda não viram os filmes do Christopher Nolan, não sei o que andam a fazer nesta vida - e o que verdadeiramente se chama de psicopata. Não demonstra qualquer emoção, entusiasma-se no meio do caos, não tem qualquer problema em inflingir dor a si próprio ou aos outros... Enfim, um pesadelo. E sempre foi assim que conhecemos Joker - só Joker, sem nome ou apelido - como se ele aparecesse do nada, assim, doido varrido e desejoso de deixar um rasto de sangue por onde passava. Neste filme ficamos a conhecer Arthur Fleck, ou Happy, o nome que a mãe o tratava. Arthur é um homem bom e muito só, que toma conta da mãe doente e que durante o dia trabalha como palhaço profissional, mas sonha com uma carreira em stand-up comedy. Arthur sofre também de uma doença mental que o faz rir sem se conseguir controlar em situações de medo ou de pânico, o que o deixa em maus lençóis várias vezes. Arthur é o "esquisitinho". Todos nós conhecemos um, certo? É aquela pessoa que não faz mal a ninguém, mas também não se consegue expressar, não consegue criar uma ligação "normal" e que acaba por se isolar. Todos nós conhecemos um Arthur, não conhecemos? Pois... Foi nisso que eu estive a pensar durante todo o filme. Todos nós já fomos injustos, rudes, indelicados, incompreensivos, de julgamento rápido com pessoas que não conhecemos ou que não conseguimos entender porque são muito "diferentes" de nós.




Joker é um filme FUNDAMENTAL para os dias que correm. É uma facada no coração, é um estalo na cara de cada um de nós, que nos julgamos sempre tão superiores ou que andamos sempre tão distraídos e que não nos conseguimos pôr no lugar do outro. Eu saí do cinema tristíssima. Tão triste que nem conseguia chorar. Um criminoso não nasce - à partida - um criminoso. Um criminoso - à partida! - nasce de um contexto familiar disfuncional, de experiências sociais traumáticas, de constantes negações, do bullying generalizado, da incompreensão, dos nomes depreciativos... Um criminoso é feito de cada uma dessas camadas e mais algumas. Tal como Joker.


Este filme teve de tudo: uma família disfuncional, traumas de infância, maus tratos, discriminação, "colegas" chicos-espertos, bullying (que hoje em dia se considera cyber-bullying), desilusões, desemprego, crise, roubos, espancamentos... Tudo. Foi nesta panela de pressão que se cozinhou Joker. E esta evolução Arthur-Joker foi tão clara, tão explícita, tão real que me deixou apavorada. 


Qualquer um pode tornar-se um psicopata. Qualquer um.


Joaquin Phoenix fez um trabalho fenomenal  - e o Oscar já é dele. Perdeu mais quilos do que devia ser permitido, mudou a sua expressão facial - os olhos mais tristes que eu já vi -, o riso macabro, o jeito de andar... Nada ali era Phoenix. Era tudo Arthur. Mas no meio de tudo isto, não podemos comparar com Heath Ledger por dois motivos: 1) porque o Heath era o Joker, já com todo um passado que não foi explicado e o Joaquin construiu a personagem, o que nos torna mais empáticos. 2) porque neste filme o Joker é a personagem principal e o Joker de Ledger era uma personagem secundária (o Batman era a principal). Portanto, não vamos cair em comparações - por mais difícil que seja, que eu também já cometi esse erro logo no início do texto.




Este filme é também essencial nos dias que correm porque fez com que se debatessem assuntos muito sérios sobre as doenças mentais (e como a sociedade não está preparada para lidar com elas), sobre o bullying e também sobre a exposição à violência. Há quem acredite que ver filmes como Joker vai aumentar a probabilidade de nos tornarmos todos psicopatas e imitarmos o seu comportamento. Eu tenho uma opinião sobre isto, que vai de encontro ao que os estudos dizem: não há relação. Tanto não há como eu não vejo todas as pessoas da minha idade e mais novos a falar com árvores - e olhem que fomos altamente expostos a doses exageradas de Floribella! Li num post do Nuno Markl no seu Instagram que dizia o seguinte: "... a mim só me faz espécie que as pessoas que consideram Joker um filme capaz de inspirar 'lunáticos' a matar 'gente sã', não veja que, se calhar, também está aqui um filme capaz de inspirar 'gente sã' a estender a mão a 'lunáticos' antes que seja tarde demais". E, no fundo, isto diz tudo sobre Joker.


Depois também há quem defenda que este filme está diretamente relacionado com o ser uma crítica direta a Trump. Eu cá não acho isso. Eu acho que Joker é um abre-olhos para a sociedade no geral: olhem como é que o vosso país vai ficar se continuarem a votar em imbecis como o Trump. E acreditem ou não, mas este filme fez-me ter um cuidado redobrado e ajudou-me a tomar uma decisão sobre em quem votar no domingo e sobre aquilo que eu quero evitar numa sociedade.


Há tanto, mas tanto para dizer sobre o Joker e em particular sobre o trabalho fenomenal de Joaquin Phoenix e Todd Phillips, mas gostava mesmo que fossem ao cinema ver com os vossos próprios olhos. Preparem-se para ficarem arrepiados do início ao fim. Eu ainda estou.




Ah e todos os candidatos aos Oscars de 2020: foi um mau ano para vocês concorrerem. Em 2021 há mais.


quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Must-See

É indiscutível que eu sou uma fanática por cinema. Adoro filmes, séries e até documentários. Desde que sejam de qualidade e/ou abordem uma temática que me interessa, eu estou nessa. Mas os próximos tempos trazem novidades maravilhosas que eu não quero, de todo perder. Nem quero que vocês percam. Por isso, apontem aí na vossa agenda:

SÉRIES


No campo das séries não podemos ignorar o lançamento da 5ª temporada de Peaky Blinders - que já saiu no Reino Unido - que acontece em outubro, by order of Peaky Blinders, claro. Já não dá para aguentar as saudades da família Shelby, pois não? Ainda por cima, esta temporada vai ter um upgrade: Sam Claflin.



A 17 de novembro voltamos a entrar pela porta da frente do Buckingham Palace e acompanhar o dia a dia da Queen Elizabeth. Estou a falar, claro, de The Crown. Adorei ver a série e aguardo a nova temporada. Desta vez vamos ter um avanço no tempo e Olivia Coleman vai substituir Claire Foy no papel principal de rainha. Mas as boas notícias não acabam aqui... A "minha" Helena Bonham Carter também vai fazer parte do elenco e transformar-se em Princesa Margaret!


Estamos conversados a nível das séries. Vamos falar de filmes:


FILMES


Começo por um que já estreou em agosto e que eu sublinho e risco até furar a página que é OBRIGATÓRIO! Não entendam isto como uma sugestão, mas como uma ordem, um dever cívico. Toda a gente deve ver Once Upon A Time... In Hollywood de Quentin Tarantino. Nunca escondi aqui que sou mega fã deste senhor ao ponto de levar o meu pequeno irmão, há 10 anos, a ver o Sacanas Sem Lei no cinema. Ficou chocado, claro - era tão novinho e não estava pronto para aquela violência -, mas imediatamente convertido a esta religião Tarantiana. Somos seguidores fiéis e claro que já tratamos de ir ao cinema ver a sua mais recente obra de arte. Talvez dedique um post só a este filme. Aqui deixo só mesmo a nota: IDE, MEUS FILHOS, ide e saboreiem o que se faz de melhor no cinema dos dias de hoje.

P.S. Ainda não estás convencida? Olha que entra o Brad Pitt E o DiCaprio. Sim. "E". Ambos "os dois". Estão a dar tudo... É a loucura!



Se há filme que eu estou a fazer risquinhos na parede para assistir é Joker. Tem todos os ingredientes que se pede para que seja um filme do caraças: Joaquin Phoenix, Joaquin Phoenix e Joaquin Phoenix. Pronto... Há outras coisas extraordinárias neste projeto também, tais como ter vencido um Leão de Ouro em Veneza, ter sido ovacionado por 8 minutos no mesmo festival, oferecer-nos uma perspetiva diferente da personagem ao público, torná-la mais real, mais humana e fácil de "acreditar" e, por isso, de nos envolver. Enfim, acho que o Joaquin Phoenix teve um desafio épico: recriar esta mítica personagem que foi brilhantemente desempenhada por Heath Ledger e que eu acreditava ser quase impossível de superar. Pensei isto até anunciarem o nome de Phoenix para o papel. Aí disse logo que ia ser O Joker. E tenho provas escritas!!! Venha de lá outubro para isto!



Eu acho que ainda não tinha dito aqui, mas quando fiquei órfã de série (depois de devorar 4 temporadas de Peaky Blinders em 1 semana) não sabia que fazer. Uma noite lembrei-me de ir cutucar o episódio 1 de Downton Abbey que tinha ficado a meio há algum tempo - não me despertou grande interesse na altura, mas decidi dar-lhe uma segunda oportunidade. Em pouco tempo liguei-me àquela família de verdade e só me apetecia tratar o meu Pai por "Papáah!", como só a Mary consegue pronunciar, e usar luvas até ao cimo do braço. Foi com espanto, pela coincidência, que percebi que o filme de Downton Abbey estava prestes a estrear! Agora aguardo ansiosa para voltar a encontrar-me com os meujamigos todos, como a Mary, a Cora, a Anna, a Daisy e, especialmente, a Tia Violet!



Não é segredo que sou mega fã de Frozen - sou a Elsa! -, da história do Frozen, das personagens do Frozen, das músicas do Frozen, dos brinquedos do Frozen... Já perceberam, não já? Claro que mal posso esperar pela segunda parte desta história! A ver se volto a ser "comidinha de cebolada" com o enredo... Alguém desconfiou das intenções daquele príncipe manhoso no primeiro filme? Eu fiquei em choque!



Last, but not the least, O Pintassilgo. Provavelmente ainda não ouviram falar. Eu própria mal me apercebi que este filme ia acontecer, mas chamou-me a atenção porque eu já li o livro - um pequeno calhamaço de umas 800 páginas, se bem me lembro. Não fiquei apaixonada pela história nem pela escrita, mas lembro-me que gostei e entreteve-me ao longo de uma semana de férias no Algarve. Quero ver para dar imagem àquilo que imaginei na minha mente e para ver obras de arte, que é o que se quer desta vida, né? Isso e uvas docinhas e fresquinhas.





sexta-feira, 26 de julho de 2019

Uma série de séries



Tenho visto imensa coisa na televisão. Bom, na verdade, no computador, mas isso agora não interessa nada. Ando absorvida em séries absolutamente extraordinárias e outras séries muito boas que merecem ser abordadas aqui. Considerem este post como um guia de sugestões de séries que podem pôr na vossa lista de To-See-(Soon)! Isto, claro, se já não tiverem sucumbido à tentação, tal como eu... Preparem-se, isto vai ser uma viagem!


8,1 IMDb
Começamos por The Act porque já terminou e tem apenas 1 temporada. Apesar disso, não se vê assim tão rápido - eu, pelo menos, não vi - porque é uma série perturbadora, onde o real ultrapassa largamente a ficção, o que torna tudo muito mais mórbido... É uma série baseada na história real de Dee Dee e Gypsy Rose, mãe e filha, respetivamente. A história é recente e conhecida do público, portanto, contar o enredo-base não é um spoiler, mas um ponto de partida. Tudo o que importa está para além desses factos que ouvimos falar ou que lemos algures. Está nos detalhes do quotidiano, nos indícios aqui e ali de que a loucura se estava a manifestar de forma galopante e que o desfecho não podia ter sido menos trágico. Está nas atuações brilhantes de ambas as atrizes (Patricia Arquette e Joey King) e na narrativa progressiva, que nos vai afundando cada vez mais naquele drama. 

Sem mais rodeios, Dee Dee é, aparentemente, uma mãe extremosa e amável com a sua filha muito, muito, muito doente, Gypsy, que se desloca numa cadeira de rodas elétrica e é praticamente dependente dos cuidados da sua mãe. Vivem da generosidade dos vizinhos, de donativos e de instituições que apoiam crianças com doenças em fases terminais, que lhes construíram, por exemplo, a casa onde habitam depois de terem perdido tudo no furacão Katrina. Até aqui, tudo bem. Simpatizamos com a mãe, amorosa, e com a filha que ainda é uma criança ingénua e feliz. Dee Dee faz de tudo para que esta não se aperceba de que está a crescer e torna a vida de ambas num conto de fadas constante. 


A história adensa-se e vamo-nos apercebendo de que as coisas não são bem como nos contam.


Afinal Gypsy não é alérgica ao açúcar, consegue andar e é capaz de dormir sem a máscara de oxigénio. Mas o que se passa aqui? Passa-se um caso muito severo de Síndrome de Munchhausen, uma doença que a pessoa finge, em si ou nos outros, doenças para chamar atenção ou simpatia (a série Sharp Objects também aborda esta doença, lembram-se do post que eu escrevi?). Ou seja, a mãe inventava doenças e sintomas que a filha não tinha, medicava-a sem prescrição médica (esses medicamentos acabavam por deixá-la doente, claro) e convenceu-a de que não conseguia andar. Tudo isto para que a filha nunca saísse debaixo da sua asa - e claro, para ir buscar subsídios e dinheiro das  generosas doações.

Porém, como uma adolescente normal, Gypsy tinha curiosidade sobre muitas coisas e, ao explorá-las às escondidas da mãe, encontrou um rapaz por quem se apaixonou. Os dois adolescentes conversavam através das redes sociais e desenvolveram uma relação pouco saudável ao longo de 2 anos. Até que o esperado acontece: corria o ano de 2015 quando Gypsy, farta de viver uma mentira, convence o namorado, esquizofrénico e bipolar, a matarem a mãe e a viverem juntos e felizes para sempre. O objetivo foi cumprido mas a fuga durou pouco tempo e ambos foram apanhados pela polícia. Gypsy vai ser libertada em 2024, mas Nick (o assassino) apanhou prisão perpétua.

Tudo isto também pode ser visto no documentário Mommy Dead and Dearest, igualmente perturbador, com testemunhos reais de familiares, vizinhos e médicos. Eu aconselho a que vejam, mas primeiro assistam à série. É desconcertante e confusa porque, se por um lado nós conseguimos entender a Gypsy, por outro não compreendemos como é que ela foi capaz de matar a própria mãe... É um caso macabro, sem dúvida.


Chernobyl
Chernobyl vem a seguir porque também é uma mini-série que já terminou. Tem igualmente apenas 1 temporada e conta como tudo aconteceu naquele dia fatídico de 25 de abri de 1986, com a explosão de um reator nuclear de Chernobyl, na cidade de Pripyat, Ucrânia, e tudo o que se sucedeu até ao momento em que os arguidos vão a julgamento em tribunal. A história nós já conhecemos bem, mas os detalhes, os heróis anónimos, os jogos de poder, de interesses e as decisões políticas são a alma desta mini-série de sucesso. Tal como em The Act, por já sabermos o desfecho, não retira em nada o entusiasmo e a curiosidade cada vez mais crescente em saber como tudo termina. 

Esta série está repleta de momentos chocantes - principalmente por sabermos que são verdadeiros -, de pessoas que foram heroínas no real sentido da palavra, pessoas normais que puseram a sua vida em risco para salvar o seu país e as pessoas que nele viviam. 


É uma lição de ciência, de física, de química e de cidadania e humanismo também. 


Eu sou extremamente curiosa em relação a este assunto, talvez porque nunca o compreendi muito bem. Já tinha visto documentários com A Voz de Chernobyl, da jornalista Svetlana Alexiévich (que aconselho vivamente e que é baseado no livro com o mesmo nome) e um episódio de Dark Turism que aborda este assunto, mas ambos retratam os anos depois da explosão, a atualidade. Eu precisava de conhecer o que é que aconteceu na altura e como. Precisava de ver respondidas algumas questões, como: o que acontece ao nosso corpo quando somos expostos a radioatividade? - eu só conheço o caso do Hulk e, garanto-vos, ninguém fica verde, grande e forte em Chernobyl - O que é que existe dentro de um reator? Como é que a radioatividade funciona? Como é que se pode controlar a radioatividade? Será que as tropas e as equipas de intervenção estavam preparadas para aquilo? O que aconteceu para que a explosão acontecesse? Tinha tantas dúvidas que foram claramente respondidas no decorrer do enredo. 


Chernobyl mostrou-nos o melhor e o pior do que aconteceu e merece todo o hype que teve em torno dele. 


A série está absolutamente fenomenal, quer em questões mais técnicas (caracterização, cenários, guarda-roupa, fotografia, luz, etc.) como em questões de guião, de cadência de acontecimentos, de gestão de picos de adrenalina e, claro, de grandes interpretações.

Chernobyl deixou-me com insónias. Quem me conhece sabe que isso é raríssimo acontecer. Mas depois de ver uma série tão bela e terrível, que aconteceu de facto, deixou-me a questionar muitas coisas, especialmente a força que a política tem no dia a dia dos cidadãos comuns e até que ponto é que nós estamos a salvo desses jogos de interesse e reputação. Vejam!


8,6 IMDb
Big Little Lies é uma série enganadora. Quando começa nós achamos que vamos na direção de um Donas de Casa Desesperadas II, uma série soft, light, que não nos vai obrigar a pensar, perfeita para descontrair de vez em quando e para rir também. A meio da primeira temporada percebemos que não podíamos estar mais enganadas. Isto porque o elenco junta, maioritariamente, mulheres bonitas, que vivem bem, com boas casas, carros, roupas, casamentos aparentemente felizes e filhos perfeitos. Depois começamos a entender que as coisas não são bem como parecem ser - como tudo na vida, não é?


As big little lies (ou as pequenas grandes mentiras) são aquelas mentiras que se entranham no nosso dia a dia, que se apoderam da nossa vida e que mudam o rumo das coisas. 


São pequenas coisas que se acumulam e se vão tornando autênticos "elefantes na sala". E todas as personagens têm alguma coisa a esconder ou a reprimir. Todas. Umas mais graves e traumáticas do que outras, umas que podem ser remendadas e outras que não têm solução.

Foi uma agradável surpresa, para dizer com verdade... Celeste, Renata, Madeline, Jane e Bonnie vivem na mesma cidade e têm filhos/as da mesma idade que frequentam a mesma escola. À exceção de Jane, uma recém chegada à comunidade, conhecem-se há anos e denota-se alguma raiva e competitividade entre alguns membros. Depois de algumas intrigas há um momento em que todas elas são obrigadas a unir-se e a defenderem-se umas às outras. E é aqui que a série é fantástica, porque não vai atrás do clichê básico de que as mulheres se dão todas mal e que se lixam umas às outras. 


Pelo contrário, em Big Little Lies descobre-se o real poder que uma amizade pode exercer na vida de uma pessoa e que a união faz, efetivamente, a força. 


É uma força feminina que tem muito que se lhe diga e é aqui que se rompe com o esperado. Na segunda temporada, a série vem com um reforço de peso, o Cristiano Ronaldo de Hollywood: Meryl Streep, que interpreta o papel de sogra de Celeste e que nós nunca sabemos bem se sentimos pena ou raiva dela, tal como a nora. Talvez ambas as emoções, não sei bem.

Ao longo das duas temporadas conseguimos ver casamentos destruídos, violações, violência doméstica, traições, falências, bullying, doenças, traumas, transtornos, luto... Que todos têm que enfrentar. Por outro lado, vemos amor, amizade, carinho, união, redenção, gratidão, reencontros, curas, libertação... Tudo isto com interpretações fenomenais - repito: FE-NO-ME-NAIS - de atrizes incríveis, um guião quase perfeito, uma técnica fantástica e tão smooth que até parece fácil... 

Não tenho nada a apontar a Big Little Lies. Nada. E ainda para mais sabendo que não tencionam continuar com a série. Eu concordo. Fica tão bem como está...


8,5 IMDb
Acho que esta série não precisa de apresentações, até porque já falei dela neste post e não preciso de lhe acrescentar nada. Handmaid's Tale tem uma história rica, densa e interpretações brilhantes. Cada episódio é um sufoco que nos deixa de boca aberta e a suster a respiração de forma inconsciente. E nunca nos para de surpreender, normalmente pelos piores motivos.

É muito difícil descrever esta série. Eu nunca consigo porque nunca encontro as palavras certas para explicar a profundidade e a pertinência dela neste tempo que vivemos. Digo apenas que aconselho a toda a gente. Toda. Devia mesmo ser obrigatória por causa de todos os exemplos de pseudo-democracias que estamos a ver surgir em vários pontos do mundo. Daí até Gilead não são passos muito largos. 


E por causa de todas as pessoas que acham que movimentos feministas, Pride ou outros movimentos de minorias são "desnecessários" ou "exagerados". Não são! Não são mesmo. 


Vejam The Handmaid's Tale, uma série baseada no romance de Margaret Atwood com o mesmo nome e depois digam-me se não tenho razão.

Esta nova temporada está a revelar-se violenta, quer visualmente, quer emocionalmente. Vemos atentados, vemos execuções coletivas, vemos mulheres mutiladas... Não está a ser um "passeio no parque". Dá a sensação que o cenário nunca esteve tão negro como até agora e eu só quero que a June se aguente firme para o que aí vem. Não posso adiantar muito porque sem contexto é difícil. Mas se tivesse que escolher uma série destas todas de que vos falo, escolheria esta para vos "obrigar" a ver, por ser a mais oportuna, elucidativa e marcante. Vejam!


8,6 IMDb
Se adoro a Casa de Papel e se acho uma série incrível? Não. Se me entretem? Muito. Para mim, La Casa de Papel serve exatamente para me divertir durante os minutos que duram o episódio e, depois disso, mais nada. Não tem grande efeito em mim a médio/longo prazo. Aliás, tinha pensado que não estaria interessada em ver esta nova temporada, mas lá fui vencida pela curiosidade que o marketing se encarregou de despertar em mim. Já a terminei, mas não fiquei assoberbada. Aliás, a fórmula é a mesma da anterior. Tudo isto começa porque, mais uma vez, a Tóquio fez borrada e o Rio foi capturado e torturado. Então, o Professor usa essa desculpa para pôr em prática o plano que Berlim pensou e criou antes de morrer e vingar a sua morte. Claro que o "objetivo principal" era obrigar o Estado a entregar-lhes o membro da equipa. Portanto, há um novo cenário (muito idêntico ao anterior), há personagens novas (ainda que sem grande relevo à exceção de Palermo, o substituto de Berlim) e o foco do roubo é outro: em vez de dinheiro, vão roubar ouro. O resto, vocês já sabem, há negociações, planos engendrados ao mais ínfimo pormenor, avanços e recuos, jogadas arriscada, enfim... Há sempre alguém que faz merda, há sempre momentos em que nós pensamos "agora é que é", há alturas que nós estamos a ver que as coisas estão a correr bem demais... Como dizer... 


Entretem, mas a fórmula é a mesma.


Tecnicamente não considero La Casa de Papel uma série incrível. É normaluxa e, por vezes, aborrecida, especialmente quando há flashbacks demasiado demorados de conversas que aconteceram e que, aparentemente, não têm sentido nenhum no contexto do episódio - e muitas vezes não têm mesmo! As interpretações são boas, umas mais do que as outras, e a minha personagem preferida mantém-se a mesma, a Nairobi, logo seguida do Denver. Acho que ambos os atores são muito bons... Já a Lisboa e o Professor, ou até mesmo o Rio e a Tóquio... Ehhh...

Bom, pelo final desta temporada percebe-se que vem uma próxima a caminho e eu estou zero ansiosa para esse momento.


8,5 IMDb
Já vos falei de Suits tantas vezes e nunca me canso, porque é uma série mesmo muito boa de se ver. É soft sem ser light (às vezes dá cá uns nervos!), é agradável à vista, por todos os atores bonitos e bem vestidos, pelas casas maravilhosamente decoradas, os restaurantes bonitos e os Rolex que lhes vemos nos pulsos. Depois há, claro, os jogos de poder, de negociação que é sempre muito divertido de se ver, especialmente se o Harvey ganhar, claro!

Este mês saiu a 9ª temporada e eu já estou de novo colada a ver. Acho que já não tem o mesmo wow desde que o Mike e a Rachel (Patrick J. Adam e Meghan Markle) sairam da série, bem como a Jessica (Gina Torres), mas ainda continua a ser interessante ver a relação entre o Harvey e a Donna. Os principais pontos negativos é que já tenho saudades de ver aqueles casos complexos de clientes em que o Harvey tinha sempre uma jogada de génio para fazer check-mate. Ultimamente, a empresa tem sido sempre atacada pela concorrência e todos lutam para se manter à tona sem os principais mentores por perto. Era giro até uma fase, mas agora já nem tanto.

Se estão à procura de uma série fixe para relaxar um bocado depois do trabalho, mas ainda assim com qualidade garantida e com jogos de poder e sedução, então Suits é uma excelente opção!



8,8 IMDb
E finalmente chegamos a Peaky Blinders. Uma das minhas características (talvez por ser Capricórnio, não sei) é que quando eu gosto, eu gosto MUITO. Não há meio termo. E quando eu digo que gosto MUITO, é já ali a roçar na obsessão. Não sou propriamente fã desta minha característica, porque me deixa muito obstinada naquela direção, mas a verdade é que a uso muitas vezes para descobrir um sem fim de coisas novas. Por exemplo, fiquei tão obcecada com Peaky Blinders que já fui ler mais sobre a história real do gang, sobre a história de Birmingham, estou há 15 dias a ouvir a banda sonora em loop - e descobri que afinal até gosto de Nick Cave, que choque! -, ando a imaginar-me a vestir as mesmas roupas que estes moços elegantes no inverno, fiz um stalkzinho ao Cillian Murphy e já despachei mais 2 ou 3 filmes em que ele entra... Enfim, podia continuar, mas não o vou fazer. Acho que já entenderam o meu nível de adoração pela série, certo? Posto isto, vamos lá:

Peaky Blinders inicia-se em 1919 e é uma história de um gang constituído pela família Shelby, ciganos de Birmingham. Os irmãos Shelby, Arthur, Thomas e John, são recém chegados a casa depois de terem lutado na I Grande Guerra Mundial. Chegaram com medalhas de honra e com traumas profundos. Têm também um currículo repleto de transgressões e violência. 


Os Peaky Blinders são conhecidos pelas apostas ilegais e pelas boinas com lâminas cosidas na dobra da frente e usadas como arma quando as coisas dão para o torno (que é quase sempre). 


Na cidade são temidos por todos e estão acima da Lei. Com a polícia e outras autoridades compradas, é muito mais fácil prosseguirem com os negócios ilegais. O chefe do gang era o irmão Shelby mais velho, Arthur. Porém, Thomas (Tommy), rapidamente se mostrou mais esperto e apto para liderar o grupo. Este é o início de Peaky Blinders. O resto, é preciso ver ;)

Vi as 5 temporadas numa semana. Assim, num bufo. E mais houvesse - há-de haver, lá para o final do ano, dizem. E o que é que a série tem de especial? É uma mistura de sucesso, na verdade: 
1) começamos com a construção muito rica das personagens, especialmente a de Tommy, a personagem principal, que é enigmático, misterioso. Tommy é tão lindo como louco (nunca sabemos bem no que está a pensar). É astuto, inteligente e tem uma postura maravilhosa. É o pilar da família e do gang. Não se deixem enganar, porque pode ser uma autentica besta. Arthur é o mais louco de todos, completamente traumatizado pela guerra e pelo abandono do pai. Vê no irmão um líder e uma âncora. John e Finn são os mais novos e especialmente o primeiro vai ganhando destaque à medida que as temporadas vão avançando. 
2) a dinâmica da série é avassaladora. Num momento estamos a suar das mãos de adrenalina e no momento seguinte estamos a afogar-nos na tristeza das personagens. 
3) a banda sonora é per-fei-ta. 
4) o guarda-roupa é de sonho, especialmente o dos homens. 
5) há muita arma, muita violência, explosões e lutas. 
6) o papel das mulheres é fortíssimo nesta série. Apesar de ser uma época em que elas não eram commumente tidas em conta, no seio dos Peaky Blinders elas estão muitas vezes a assumir as rédeas e a controlar as situações.

Há também um outro fator interessante em Peaky Blinders. É que apesar da história ser maioritariamente imaginada (é levemente inspirada num gang), consegue enquadrar na perfeição vários momentos históricos como a I Grande Guerra Mundial, o movimento das Sufragistas, a ascensão de Winston Churchill (que entra na série), bem como referências a Al Capone (provavelmente vamos ouvir falar mais dele na próxima temporada), à máfia italiana, à Família Real, a Charlie Chaplin, entre tantos outros.


Para vos aliciar a ver ainda vos posso dizer que entra o Tom Hardy e o Adrien Brody. 


Petyr Baelish "Littlefinger" e o Night King (referências para quem gosta de Game of Thrones) também participam, bem como uma série de outros atores que faziam parte de GoT.  E agora? ;) 

Acho que ainda vou ter muuuuuito para falar sobre esta série, mas entretanto, vejam-na, by order of Peaky Blinders!

Bom, é isto que tenho andado a ver nos últimos tempos. Ainda aguardo a nova temporada de The Crown e estou a começar a ver Pearson, um spin-off de Suits, mas ainda só vi 2 episódios e, por isso, não tenho muito a dizer. Sugeriram-me algumas séries no Instagram e acho que vou por aí agora ;)


quinta-feira, 11 de julho de 2019

Black Mirror


Não sei se já tiveram a oportunidade de ver a nova temporada de Black Mirror. Se ainda não viram, então parem de ler este post aqui, ok? É que vão haver spoilers...

Estive bastante ansiosa por este regresso. Posso afirmar que Black Mirror é das melhores coisas que já vi. Faz todo o meu estilo, faz-me pensar, recear, ficar angustiada e refletir melhor sobre "que raio andamos nós a fazer". Mas também, de vez em quando, dá-nos esperança e uma way out destes imbróglios da nossa vida altamente influenciada pela tecnologia.

Já vi episódios absolutamente fenomenais e que, certamente, não me vou esquecer tão cedo, e já vi outros que são mais solúveis na memória. Porém, esta quinta temporada, que estreou no início de junho, e que tem apenas 3 episódios, não vai ficar registada.

Senti que foi uma travagem brusca na adrenalina que Black Mirror nos habituou. Fez-me questionar muito pouco, não fiquei propriamente angustiada ou a duvidar de determinadas situações.  Não me alertou para nenhuma questão sobre a qual eu nunca tivesse refletido antes. Simplesmente entreteve-me durante duas noites.


Striking Vipers
O primeiro episódio, Striking Vipers, conta com atores conhecidos (Marvel e DC) e retrata uma crise de meia idade que é esbatida num jogo de realidade virtual em que ambos os jogadores, e amigos de longa data, se envolvem romanticamente através dos seus avatars. Aqui podemos questionar o que é a traição, o que é a fidelidade, o que é um casamento sólido, uma amizade longa, a crise de identidade e de que forma é que a introdução da tecnologia (neste caso particular, a realidade virtual através de um vídeo jogo) veio esbater ou redesenhar estas fronteiras. Apesar de não ser um episódio incrível ao nível do conteúdo, os efeitos visuais dos avatars e do universo muito ao estilo de Street Fighter é bem interessante. Ainda assim, tendo em conta as temáticas, este é, talvez, o episódio mais out da temporada... Aquele que eu imagino que poderá mesmo vir a ser uma realidade muito em breve.


Smithereens
Talvez o melhor episódio da temporada. Smithereens é uma das personagens principais desta história e é também uma rede social (semelhante ao Twitter). Todo o guião se baseia na angústia, na dor dilacerante e do poder destrutivo do sentimento de culpa. Conta a história de um homem que viu o seu mundo ruir porque apenas espreitou para o telemóvel, um gesto que nós fazemos inúmeras vezes ao dia, sem medir consequências. A interpretação de todos os atores é espetacular e torna o episódio mais tenso, denso e pesado. É, na verdade, o único que nos faz refletir mais até porque é aquele que mais se relaciona com a nossa realidade neste momento. Há uma das falas de Chris (o protagonista)  que diz que o céu podia ficar roxo que ninguém iria reparar ao longo de dias porque estão todos com os narizes nos ecrãs. Claro que isto é um exagero (é?), mas deixa-nos a pensar...


Rachel, Jack and Ashley Too
Por fim, entra em cena a Miley Cyrus com a sua Ashley O, uma cantora pop absolutamente aprisionada no mundo do marketing, das vendas e do profit. Apesar de ser um episódio meio perturbador porque também é bastante próximo da nossa realidade (o mundo musical) e todos nós sabemos como é que as coisas acontecem (e que aconteceram também com a própria Miley), acaba por se tornar cada vez mais entretenimento e cómico ao longo do tempo do que propriamente assustador e dilacerante, como tinha todo o potencial para o ser. Ainda assim, um bom episódio que aborda algumas questões pertinentes, embora de forma superficial.


E pronto, este é o resumo da nova temporada de Black Mirror. Ao menos consegui voltar à minha vidinha, sem angústias ou reflexões profundas - mas não era isso que eu esperava! Ao contrário desta série, Handmaid's Tale e Chernobyl tiraram-me o sono. Mas isso já é assunto para um outro post :)





quinta-feira, 2 de maio de 2019

Homecoming



Quem é que neste mundo ainda não viu o Homecoming da Beyoncé? É tão difícil não ter visto como fugir de spoilers de Game of Thrones, certo?


Eu sou fã da Beyoncé - quem não é? Não sou aquela fã incondicional que lhe segue os passos, que imita as coreografias todas, que sabe tudo sobre a vida dela, que está sempre ali à espreita... Não. Esse lugar na minha vida será sempre ocupado pela Rainha-disto-tudo, a sô dona Madonna. E podem dizer o que quiserem, mas hoje a Beyoncé pode fazer, dizer, cantar e pensar o que quer - e quem diz a Beyoncé, diz outra artista atual qualquer - muito graças ao caminho desbravado pela Madonna. E se não conhecem a carreira desta mulher, não piem. Combinado? Não se esqueçam que ela anda por cá há várias décadas, sempre com sucesso... E esse não é um campeonato com muitas equipas em jogo.




Mas a Beyoncé vai a jogo e marca golos. Damn que a miúda sabe muito bem tudo o que faz e cada movimento de anca é minuciosamente calculado. Ver as atuações dela é um boost de energia e de inspiração. Ela estimula-nos a sermos melhores, mais fortes, mais interventivas, proativas, produtivas... Podia continuar, mas o que eu quero dizer é que 


a Beyoncé faz-nos querer ser muito mais.


O seu novo filme Homecoming da Netflix documenta o processo de criação da sua atuação no Coachella em 2018 e mostra-nos, claro, o resultado final. A Beyoncé é perita em manter a sua vida mais pessoal afastada da ribalta e poucas vezes podemos assistir a momentos verdadeiramente íntimos - os que vemos são aqueles que ela permite que se veja. Neste documentário isso acaba por acontecer. No entanto, vemos uma Beyoncé diferente, e foi isso que me chamou a atenção.




Tal como referi no início do artigo, nunca fui de a seguir religiosamente, mas não me lembro de a ter visto tão exposta e tão humana como desta vez. Estamos sempre habituados a vê-la no seu melhor, mas em Homecoming vêmo-la a recuperar de uma gravidez, onde afirmou que ficou com 99kg (eram gémeos) e que teve que ter uma enorme força de vontade para conseguir tentar ter o corpo e a resistência de antigamente. No documentário vemos uma pequenina amostra dessa luta diária, desse compromisso e vemos também a parte mais humana dela: gordinha, sem maquilhagem, a arfar nos ensaios, a treinar muito e com humildade, junto dos seus bailarinos e da banda. A certa altura ela diz qualquer coisa do género: as pessoas quando nos vêem no palco nunca pensam nos sacrifícios que estão por detrás daquela atuação. Emocionalmente eu não estou aqui, não quero treinar, não quero ensaiar. Só quero estar com os meus bebés.


No fundo, aquilo que uma mãe quer, certo? Mas a Beyoncé dedicou-se a 200% a este compromisso e apresentou uma atuação épica, um resumo de toda a sua carreira e um regresso a casa. A Beyoncé é quem é e está onde está por puro mérito, talento e muito, muito, muito trabalho. A verdade é que este documentário inspirou-me. Dei por mim a pensar: bolas, a Beyoncé já pesou quase 100kg, ela já duvidou que era capaz, ela já fez uma dieta tão rigorosa que admitiu que passou fome, ela questionou se alguma vez iria voltar ao que era... A Beyoncé também tem momentos de baixa auto-estima, de dúvida... A Beyoncé é uma pessoa como eu. Então eu um dia também posso vir a ser uma pessoa como a Beyoncé...




No dia a seguir de ver o documentário fui correr. Custou. Disse mal da minha vida todo o caminho. Não consegui correr sempre. Mas fiz 4km e uns trocos. Hei-de continuar na luta. Iniciei uma "dieta": comer mais vezes e melhor - especialmente mais fruta. Aumentei os meus treinos no ginásio e estou mais atenta ao meu corpo. Não sei se vai dar resultado, mas agora, quando eu duvido de mim, penso que até a Beyoncé duvidou dela, e no fim conseguiu.


Vejam o Homecoming, por isso e por tudo o resto.





segunda-feira, 29 de abril de 2019

GoT it?



Não sei se vocês sabem, mas sou grande fã de Game of Thrones - não sabem? Andam a dormir ou quê? - E só podia ser, não é?, tendo em conta todo o meu amor por O Senhor dos Anéis, Hobbit e outras epopeias que tais. Game of Thrones vai marcar uma fase da minha vida, da mesma forma que o Harry Potter marcou ou o Dragon Ball. É das melhores coisas alguma vez produzida para TV de massas da História, digam o que disserem, mas também concordo que não é para todos os palatos. Aceito e compreendo perfeitamente quem não se revê no enredo, no estilo medieval... Normalmente são as mesmas pessoas que me dizem "Nunca vi Senhor dos Anéis, nem quero!". Claro que me dá ganas de lhes dar com um pau nas costas, mas depois respiro fundo e acabo por ter pena daquelas pobres almas que não sabem o que é bom...




Calma, pessoal, estou a brincar! Eu aceito que haja pessoas com gostos diferentes dos meus, ok? Não gosto muito é quando me dizem que nunca viram mas já sabem que não vão gostar... Bom, se nunca viram, não podem saber, certo? Como é que sabemos se gostamos de uma comida se nunca a experimentarmos? Como sabemos que não vamos gostar de visitar uma cidade se nunca lá fomos? Right? Mas também há muito boa gente que me diz "Vi dois ou três episódios e não gostei. Desisti." Perfeito! Isso sim, é uma opinião construtiva e com a qual eu não posso - nem devo! - debater. Também há quem diga "Nunca vi porque não tenho muito interesse. Não tenho opinião sobre o assunto". Ótimo, esta é a opinião-suíça e está sempre correta. Bom, em resumo - e desculpem lá, mas alonguei-me com estas minhas teorias - antes de terem uma opinião muito firme sobre o que quer que seja, primeiro experimentem!


Vim aqui para falar especificamente de Game of Thrones e perdi-me pelo caminho.


O segundo episódio desta última temporada foi maravilhoso. Podem dizer-me que não acharam muita graça, que foi sossegado, que não aconteceu nada de especial, mas a verdade é que é precisamente o oposto.


O episódio teve, em particular, um guião irrepreensível. Os diálogos foram absolutamente perfeitos - quão raro é isto acontecer no cinema mais "comercial"? -, a cadência de acontecimentos esteve no ponto, sem cenas chatas, desnecessárias e sem nada ter ficado por dizer ou mostrar. As referências a situações/personagens/momentos do passado foram subtis e oportunas. Apesar do episódio ter sido lento, foi extremamente importante e necessário para anteceder os próximos (que serão épicos, certamente). Foi o momento de calma antes da tempestade. Aqui reuniu-se as personagens - mesmo aquelas que nunca tinham contracenado -, resolveu-se alguns conflitos, prepararam-se(nos) para a guerra, tanto em termos físicos (armas, mecanismos de defesa, soldados) e em termos emocionais (reencontros, perdões, novos pactos, reposição da verdade, redenção). O episódio deu oportunidade a Jaimie e Theon para se redimirem perante os Stark e perante os espectadores, mostrando a profundidade destas personagens, que evoluíram tanto ao longo de 8 temporadas. Foi ainda um episódio comovente, com a menina de rosto queimado - numa clara referência a Shireen -, as "despedidas" antes da guerra ou a ordenação de Brienne. E ainda assim, com momentos divertidos, especialmente com as tiradas de Tormund. Os dados estão  agora lançados e o inverno já chegou.




Há muito que uma série não me deixa tão entusiasmada e ansiosa como esta, sempre à espera do próximo episódio e de novos desenvolvimentos. Em particular, esta série é maravilhosa porque nada é certo, previsível ou intocável. Qualquer um pode morrer, matar, trair, conspirar,... Como na vida, certo? Ninguém é só bom ou só mau. Todos nós somos ambos, e sobressai mais um ou outro de acordo com as circunstâncias.


Estou ansiosa para ver o que se segue, mas ao mesmo tempo não quero que acabe. É sempre um sentimento agridoce, não é?




Pronto, acho que já me alonguei o suficiente e vocês, que não são fãs desta série, estão aqui a apanhar seca. Mas é que esta madrugada estreou o terceiro episódio, que supostamente é o mais longo e tem todo o ar de vir a ser épico e inesquecível. Portanto, tenho só mais um aviso a fazer à navegação: 


NÃO ME SPOILEM! 


Estou de férias esta semana e só no sábado à noite (ou domingo, não sei) é que vou conseguir ver o terceiro episódio - vou andar com o cortisol nos picos e entrar a medo no facebook, instagram e restantes redes sociais desta vida. Portanto, se ainda me estão a ler, façam um favor a esta alma perdida e não coloquem spoilers nas vossas páginas, não partilhem artigos com spoilers, não façam nada, não se mexam, não respirem... Pelo menos até eu regressar.


GoT it? 
(gostaram do trocadilho?)
Agradecida!





quinta-feira, 25 de abril de 2019

Free Solo



No dia da Liberdade pareceu-me apropriado falar-vos sobre este documentário que vi recentemente no National Geographic. Chama-se Free Solo e ganhou o Oscar de Melhor Documentário este ano.


Para começo de conversa, chama-se free solo à escalada solitária, sem corda e sem qualquer utensílio de proteção. Alex Honnold, atualmente com 33 anos, decidiu, a determinada altura da sua vida, que fixe era escalar o El Capitan, uma formação rochosa de granito com 900 metro de altura, que se situa em Yosemite. Feito este que nunca havia sido conseguido com sucesso. Eu ia dizer "podia dar-lhe para pior", mas a verdade é que não me lembro de nada pior do que essa ideia suicida.


O documentário mostra-nos o dia a dia de Alex, um rapaz solitário, introvertido, extremamente disciplinado e com um sentido apurado do ambiente que o rodeia e do seu próprio corpo. É-nos mostrada toda a preparação física e mental a que se sujeitou ao longo de anos para conseguir conquistar o objetivo a que se propôs.




A verdade é que não vos quero contar muito sobre este documentário, até porque o maior spoiler já está em frente a todos: como o Alex está vivo é porque realmente conseguiu concluir com sucesso este objetivo. Mas as coisas não foram lineares e os imprevistos, as dúvidas, os obstáculos aconteceram e estão documentados. A grandiosidade desta obra não está no final épico. Isso é apenas mais uma cena incrível. Está nos detalhes pequeninos, na transformação de Alex ao longo do tempo - as filmagens duraram 2 anos -, enquanto que se preparava para escalar aquela muralha e enquanto tentava baixar a sua própria muralha para deixar entrar Sanni, uma rapariga que conheceu durante este processo e que esteve sempre ao seu lado a apoiá-lo.


Free Solo é uma história de superação, de inspiração e também de liberdade. De desafio dos limites, da vida, do senso comum, apenas porque se acredita tanto que vai dar certo e de que se é capaz, que nem existe outro cenário que não o melhor. Durante todo o tempo de filme estive com calafrios e a transpirar das mãos, como se estivesse ali mesmo, ao lado deles. E isso deve-se a uma produção de excelência, porque conseguiram captar cada pormenor, cada som, cada imagem, cada respiração, sem tornar tudo isto numa grande exploração comercial.


É de realçar que houve dois portugueses envolvidos na produção deste documentário e que o Oscar foi mais do que merecido. Vejam o Free Solo, pessoas. Vejam mesmo! E depois vão perceber porque é que não vos posso contar mais detalhes... Porque vocês precisam mesmo de sentir o que eu senti.




E vocês, têm algum desafio na vida que achem impossível de superar?
Hum... Se calhar não ;)


Free Solo 
de Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi
com Alex Honnold






quarta-feira, 6 de março de 2019

Green Book



Já vos disse que Green Book foi o meu filme favorito dos Oscars? 
Já? Ups, I did it again...


E que feliz fiquei por vê-lo receber o maior Oscar da noite, totalmente inesperado, totalmente vindo do nada. As minhas fichas estavam todas no Roma, que também era bem merecido, mas nunca imaginei que Green Book fosse o vencedor. Não que não fosse bom - que o é! - mas  porque, tendo em conta a concorrência, havia mais filmes "à Oscar", como A Favorita ou Roma. Não sei se me entendem... Mas vamos lá falar sobre esta história.


Tudo decorre em 1962, nos EUA, altura de segregação e racismo. Tony Lip (Viggo Mortensen) é um típico italiano trabalhador, mas cheio de lábia e sempre pronto a trapaçar o outro. Trabalha como segurança de um bar, até que o patrão o informa que vai ter que encerrar durante 2 meses para obras e Tony vê-se desempregado e com uma família, que ama acima de qualquer coisa, para sustentar. Obrigado a arranjar uma solução para o seu problema, responde a uma oferta de emprego para ser motorista de um Doctor Shirley (Mahershala Ali). Descobre que Doctor Shirley não é médico, mas sim um grande pianista e que é negro. Apesar de Tony se mostrar bastante hesitante e desconfiado - especialmente por Shirley ser negro - aceita o emprego de o conduzir ao longo de 2 meses na sua tour pelo sul racista dos EUA.




A viagem trouxe-lhes muitos problemas, mas também mudanças maravilhosas para ambos os homens que, cada um à sua maneira, estavam cheios de preconceitos e de desconfianças. Nasce uma bonita amizade, sincera, honesta e protetora, ao mesmo tempo que cresce em ambos uma tolerância que não existia antes. Estas maravilhosas transformações acontecem ao longo de muitos pequeninos momentos salpicados ao longo do filme, que são incríveis relatos verídicos de dois bons amigos.




Em Green Book conseguimos ver os dois lados destes homens que, no fundo, retrata muito bem a sociedade de então - e, infelizmente, a de agora também. Don diz-se discriminado pelos brancos por ser negro e discriminado pelos negros por não ter hábitos, comportamentos nem partilhar da cultura negra. Vive num constante conflito pessoal sem nunca se conseguir definir perante si e perante os outros. Apesar de ser um prodígio nos palcos, convidado a aturar em todos os locais emblemáticos e contratado por todos os "brancos ricos e influentes", quando desce do palco é apenas mais um negro. No entanto, Don sempre foi um privilegiado, rico e bem sucedido. 




Por sua vez, Tony é um cidadão de classe média baixa, que tem que trabalhar muito para conseguir dar uma vida confortável aos seus filhos e que tem que passar por várias provações para conseguir uma vida estável, longe da máfia e da cadeia. E a questão é: quem é a vítima aqui? Há uma dualidade tão interessante de explorar que torna todo o filme, todo o guião tão mais rico e incrível.


Neste filme há um sem fim de assuntos a debater, como já perceberam, e inúmeras situações discriminatórias que mexem com as entranhas. Mas ao mesmo tempo é delicioso ver estas duas pessoas, tão distintas entre si, na cultura, no contexto, nos hábitos, a tentar conviver e a deixar crescer uma bonita amizade e a aprender um com o outro.




Não existiria filme sem o MA-RA-VI-LHO-SO trabalho do Viggo - que merecia mesmo o Oscar - e do Mahershala, que venceu o seu segundo Oscar de Melhor Ator Secundário. São ambos atores do caraças, pois conseguiram abandonar-se a eles próprios para assumir personalidades e comportamentos absolutamente distintas das suas. O Viggo teve que encarnar num italiano, que gesticula e que é tão extrovertido e cheio de lábia que é impossível não gostar dele. Mahershala tornou-se num Don cheio de "macaquinhos no sótão", um génio solitário, infeliz, extremamente talentoso e culto, cheio de boas maneiras e etiquetas, mas com a permanente questão do "afinal quem sou eu?" sempre presente no seu inconsciente.


Aconselho a todos a ver, de coração. 
Vão ficar rendidos.


Green Book
de Peter Farrelly
com Viggo Mortensen e Mahershala Ali