sexta-feira, 27 de abril de 2018

out of confort zone


Já vos posso contar o que andei a fazer nos últimos tempos porque a prova de fogo já passou. Corri. Verdade. Euzinha a correr.

*Vamos fazer aqui uma pausa para assimilarem a informação*

Já passou? Podemos continuar? Bora lá então.

Desafiaram-me para uma corrida de 5km. "5km faz-se na boa! Qualquer um consegue! Treinas na véspera e está feito!" E eu a pensar para mim que nunca tinha conseguido correr 2km, nem quando treinava dia-sim-dia-não. Mas disse que ia, que podiam contar comigo.

Ainda não sei muito bem o porquê da minha resposta, com franqueza. Sempre fui uma nódoa na corrida - e continuo fiel a mim mesma - e nunca tirei qualquer prazer nessa atividade, mas disse que sim. Fo#$-se, eu disse que ia correr 5km em prova de estafeta, enquadrada numa equipa de 4 pessoas. É que nem sequer podia desistir! Caso o fizesse, toda a minha equipa era desqualificada...

Mentalizei-me que tinha que começar a treinar.


OS TREINOS
Tinha 2 semanas para conseguir correr 5km quando antes não conseguia correr 1,5km e num tempo vergonhoso. Muni-me das minhas melhores armas: treino adaptado no ginásio, mais natação nestas pernas (e treino de respiração) e o meu PT do coração, o meu primão. Escolhi a pior semana do ano para começar a correr: chuvas torrenciais, frio a sério e muito vento. Mas lá fomos nós para o parque, com lama até aos joelhos e molhadinhos até à alma. Na semana seguinte foi o oposto: bom tempo, calor, sol e uma brisa fresca que melhora sempre tudo.

Nos treinos nunca consegui correr os 5km seguidos, mas também não sou parva. Não tinha tempo suficiente para conseguir treinar essa proeza. Se conseguisse fazer os quilómetros todos sem ficar para morrer no final, já era uma grande vitória para mim. Não estava preocupada com o tempo que ia fazer nem com o facto de ter que abrandar o ritmo e ir caminhando quando fosse necessário. Mas negociei sempre comigo própria de que nunca iria parar.

Durante as duas semanas treinei praticamente todos os dias. Ou corrida, ou ginásio, ou pilates ou natação. Fazia sempre o possível para manter o corpo a trabalhar.


A PROVA
Chegou o domingo, dia da prova. Todas as equipas, compostas por 4 elementos (2 homens e 2 mulheres) deviam correr 5km cada um, passando o testemunho. A prova iniciava em Guimarães e terminava em Braga, 20km depois.

Toda a gente me perguntava se estava nervosa. Dizia que não. Estive sempre muito tranquila porque sei que nunca falhei nos treinos, que dentro do tempo que tive para treinar, dei o meu melhor. Mas estava entusiasmada - afinal, era o dia da minha primeira corrida! O dia estava lindo. Saí de casa às 9h de t-shirt em direção à partida. Encontrei-me com a minha equipa, trocamos impressões, ajudamos uns aos outros a colocar os dorsais e os restantes equipamentos, demos duas ou três piadas para descomprimir e depois seguimos para os nossos pontos intermédios.

Enquanto que estava no meu posto à espera que o meu colega chegasse com o testemunho, fui ouvindo os primeiros atletas que terminaram ali a sua prova. Chegavam exaustos, estafados, a suar desalmadamente e a queixar-se do percurso, que era duro, que subia muito e que estiveram a passar mal. Eu, novata nestas coisas, comecei a entrar em pânico.

Como assim atletas fortíssimos a chegar estafados?
Eu sei, eu sei, é preciso ver que eles fazem 1 quilómetro em 30 segundos e eu demoro duas semanas e meia a fazer 500 metros... Eu sei. Mas mesmo assim, jeez! Fiquei apoquentada com o cenário.

Quando anunciaram o número da minha equipa - 112, que apropriado! Sempre achei que fosse uma private joke da organização -  deu-me um baque no coração. Fiquei a ver o meu colega ao longe, estafado, sem conseguir olhar em direção nenhuma, a pingar de suor e vermelho que nem um tomate. Fui ter com ele até onde me permitiram, peguei no testemunho e desatei a correr tipo bala (esta foi a minha perspetiva da coisa, aposto que as outras pessoas viram uma miúda a iniciar a corrida a passo apressado). Aquela adrenalina de só querer correr, já com o testemunho na mão, tramou-me. Não controlei a respiração, comecei a correr bem acima do meu ritmo e para piorar tudo, o meu percurso iniciava com uma subida considerável que se prolongava por 2 quilómetros. Comecei a pensar, ao fim dos primeiros metros "Foda-se! Onde é que te vieste meter?" ou "Porquê, rapariga? Porque é que estás a fazer isto a ti própria?" "E se eu quiser desistir? E se eu não conseguir acabar? E como é que vou fazer 5 quilómetros se eu já estou cansada e ainda não acabei o primeiro?". Depois começou o "Não vou conseguir" na minha cabeça, a bater a cada passada. As pernas foram ficando pesadas, eu não conseguia fazer com que corressem! A minha respiração era assustadoramente descontrolada e comecei a sentir o gosto de sangue na garganta. Abrandei o ritmo (fui a passo) e só me apetecia chorar. Acho que ainda não tinha chegado ao primeiro quilómetro. Eu não ia conseguir chegar ao fim.

As pessoas passavam por mim e davam-me força, puxavam por mim, agarravam-me o braço e acompanhavam-me. Mas eu estava totalmente desanimada. Zero motivação e já a acreditar que ia ficar mal. Valeu-me o meu amigo, que veio acompanhar a corrida de bicicleta e vinha ao meu lado, sempre a puxar por mim, a negociar constantemente comigo e com a minha inércia "Descansas até àquele poste e depois ligas o turbo!". Veio sempre a puxar por mim. Ora em cima da bicicleta ora a correr ao meu lado. Passavam e diziam "Ele que pegue no testemunho e o leve de bicicleta!" e ele respondia sempre "Ela é que vai entregar o testemunho. Ela consegue."

Senhores, a minha memória é seletiva e parece-me que estive só 5 minutos nesta espécie de sofrimento psicológico, mas a verdade é que demorei quase 40 minutos a fazer 5 quilómetros (vá, podem rir que eu também me rio!). Nunca tive dores ao longo do percurso. Nunca tive dor de burro, dores nos pés, dores nas pernas, nada. Nunca me senti extremamente cansada. Apenas não acreditava que ia conseguir e as pernas não corriam.

Disse ao meu amigo que aquilo não era normal. Que não corro muito mas consigo correr muito mais e melhor do que aquilo. Ele disse-me que estava a ter um mini ataque de ansiedade, mesmo que inconsciente. Por isso é que não conseguia controlar a respiração nem conseguia correr. Foi aí que eu pensei "Bolas, é mesmo isso!". Depois de acabar aquela subida do demo, consegui recuperar o meu tempo. Liguei o turbo e fui correndo e abrandando, de acordo com as ordens do meu corpo, mas já muito mais tranquila.

Não consegui tirar partido da corrida da forma que eu achava que ia conseguir. Os nervos apoderaram-se de mim, assim como as minhas inseguranças e fragilidades e o medo de falhar para com os meus colegas.

Ao fim de 30 e tal minutos, vi a reta da minha meta e vi os meus colegas de trabalho que também estavam a competir e vi também os meus pais. Dei um sprint tão rápido que nem senti as pernas. Entreguei o testemunho à minha colega que saiu disparada que nem uma bala. O meu amigo que me fez companhia, seguiu caminho com ela, para lhe dar apoio também. Na meta respirei fundo, fui direta à água (estava completamente desidratada) e à maçã. Depois pensei comigo, de forma tímida "Consegui e cheguei à meta a correr.". Fui ter com os meus pais que me abraçaram meios preocupados, meios aparvalhados por verem a lontra que têm em casa a acabar de fazer 5km a correr. Quando perceberam que estava bem, ficaram felizes e orgulhosos! Acho que eles não acreditavam a 100% que ia conseguir (mas quem é que acreditava?!). Fizeram-me perguntas e eu disse-lhes que se não fosse o meu amigo que àquela hora ainda nem tinha chegado ao quilómetro 2. Eles despediram-se de mim e eu segui de camioneta da organização até à meta.

Quando chegamos, a minha amiga a quem entreguei o testemunho (e que ia fazer o último percurso e cortar a meta) ainda estava em prova, mas muito próxima do final. Então reunimos o grupo e fomos a correr ter com ela, rodeámos-la e fomos acompanhá-la até à meta.

Chegamos todos bem, todos mais ou menos felizes (houve pessoas tristes com os seus tempos, mas a prova é dura e estava muito calor - e sem abastecimentos antes ou durante a corrida!!!) e eu, apesar de desiludida com a minha prestação, estava orgulhosa por me ter posto nesta posição, onde eu tinha tudo para falhar.

Sair da minha zona de conforto é o que mais gozo me dá, mas também me cria ansiedade, mesmo que de forma inconsciente, e que me faz passar maus bocados. Mas acredito em mim, acredito no meu esforço e na minha dedicação quando tenho um objetivo em mente. Esta corrida foi o início de muita coisa boa. Foi o início de uma confiança extra, de mais vontade, de mais força (e de menos peso, também, que isto de correr emagrece de verdade!).

Como disse, estou com memória seletiva e não me lembro claramente de ter sofrido durante a prova. Lembro-me dos pensamentos que tive, mas não me lembro dos maus momentos nem de ter corrido 40 minutos (pareceram-me 5). Mas não me vou esquecer de ter posto um dorsal, de ter uma t-shirt com o nome da minha empresa vestida, tal como os meus colegas de equipa, de chegarmos juntos à meta, de subirmos ao pódio para a fotografia de grupo... Enfim. Só não tenho medalha - acabaram! - e foi a única coisa que me faltou naquele momento. Ela vai chegar até mim, eu sei. E vou dar-lhe tanto valor, senhores...

Com tudo isto só vos quero dizer que nada é impossível (literalmente) e que é tão bom propormo-nos a desafios... Vai custar, vai doer, vai implicar compromissos e escolhas, mas vai valer a pena no final. E não falo só de correr uma prova. Falo em decisões que temos que tomar no nosso dia a dia. Arrisquem, mudem, desafiem-se!


E agora, será que me fico por aqui? ;)


Sticky&Raw
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